Hoje havia um boizinho malhado no terreno baldio na rua da minha casa. Vi ele de manhã e à noite, quando voltava para a casa na noite escura, fria e úmida. O boizinho comia mato, pensei em me aproximar e lhe dar o único carinho que ele receberia na vida. Mas fiquei com receio de desabar ao olhar seus olhos inocentes e estabelecer alguma conexão com ele. Mais do que isso, fiquei com receio de que ele, passando a conhecer o amor e o carinho, criasse expectativas de que tudo poderia ser melhor. Segui mortificada e com o estômago revirado, a impotência é uma das piores sensações que já vivi e tenho vivido, seja em relação ao animais ou à situação do país. A imagem do boizinho comendo grama não para de me vir à mente.

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“A verdadeira aceitação de um indivíduo como ele é, sem a tentativa de modificá-lo através do encorajamento, manipulação ou coação, é uma forma de amor muito nobre, e dificílima de ser praticada pela maioria de nós. Na essência de todos os nossos esforços para modificar outra pessoa, está um motivo basicamente egoísta.”

Mulheres Que Amam Demais, de Robin Norwood.

Mulheres que Amam Demais (Parte Dois)

 

Agora vou falar um pouco das minhas descobertas sobre o assunto.

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Nessa vida eu não só amei demais, como também busquei muito ser amada, me rastejei e implorei por atenção. Para que eu pudesse mudar isso, foi essencial entender os pontos abaixo:

-Pode parecer óbvio para muita gente, mas para mim não era: é importante, numa relação amorosa, que cada um tenha a sua própria vida – seu círculo de amigos, sua profissão, seus interesses. Na minha dedicação com o outro, eu acabei renunciando a todas as minhas vontades, e até hoje eu sou uma pessoa que tudo é “tanto faz”: “se tá bom para você, tá bom para mim”. Não que isso seja de todo ruim, mas às vezes eu mesma me acho estranha por ser tão neutra, e em algumas situações fica difícil olhar para dentro e identificar o que eu realmente quero. Hoje eu estava conversando com um amigo que leva um relacionamento livre e ele me falou o que pensa sobre isso: “um casal é nada mais do que dois indivíduos com vidas diferentes, que decidem ficar juntos por gostar da companhia um do outro”. Se antes eu achava que um casal são “duas pessoas que viram uma só”, hoje eu estou mais pela opinião do meu amigo.

-Quanto mais pilares de sustentação tivermos na vida, menos chances teremos de cair num vazio, caso algum deles desabe (no meu caso, eu encarava o parceiro como o meu único pilar de sustentação – e isso me causava um vazio constante). Um pilar de sustentação pode ser: uma profissão, uma faculdade, a família, amigos, um hobby, terapia, um projeto, etc. Quanto mais pilares, mais preenchido você se sente.

-Toda vez que eu entrava numa relação, caía fatalmente na dependência emocional em relação ao parceiro, pois eu deixava de ter amigos (para mim só ele era o suficiente); começava a imaginar a nossa vida juntos; tudo o que eu fazia na minha vida era voltado para agradá-lo; caía num drama imenso quando ele não me dava a atenção que eu queria; tinha muita insegurança e baixa autoestima, e por isso eu precisava que ele reafirmasse constantemente que gostava de mim, caso contrário eu imediatamente começaria a imaginar que ele não gostava mais de mim, ou que estava começando a gostar de outra.

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-O medo de perder pode também ter origem num sentimento de posse em relação ao parceiro. Sendo que uma pessoa só deve estar ao seu lado porque ela quer estar, não porque você a está prendendo ou porque precisa dela para viver.

-É interessante notar o quanto o meio cultural influencia a nossa visão sobre o que é o amor. Ô bebê, gosto mais de você do que de mim! – Kevinho, você está fazendo errado! Primeiro você gosta de você, para depois gostar dos outros. Caso contrário, nunca conseguirá se relacionar de maneira saudável, e cobrará do outro coisas que você deveria fazer por você mesmo, em primeiro lugar. As novelas, os filmes, as músicas e os livros de que mais gostamos romantizam os ciúmes e a paixão doentia, com frases como “eu sou louco por você!“, “eu faria tudo por você!“, “você é a única coisa que me importa!“, como se tudo isso fosse muito lindo, e essa fosse a verdadeira forma de amar.

Hoje percebo que ninguém merece viver à sombra de ninguém. Viver à sombra de alguém é esconder do mundo o brilho peculiar que cada um tem.

 

Não se isole, você precisa mostrar ao mundo o quanto você é sensacional!“, disse meu amigo, e isso serve para todos.

Mulheres que Amam Demais (Parte Um)

(Pausa nas traduções para um assunto que também é muito importante)

O título é de um livro que estou lendo nesse momento, da autora Robin Norwood.
Esse ano, graças à terapia, eu me descobri uma “mulher que ama demais”.
Vou falar sobre o livro contando um pouco da minha experiência e, na parte dois, do que eu aprendi – e ainda estou aprendendo – com tudo isso.

Era tudo o que eu sabia sobre o amor:  tentar ajudar pessoas e preocupar-me com elas.

Essa fala é de uma das pacientes citadas no livro, escrito por uma psicóloga com ampla experiência em atender mulheres que amam demais. Passando o olho nessa frase, ela não parece conter nada de errado – afinal, o que há de errado em querer ajudar os outros, em se preocupar com quem você ama? No contexto em que se inserem as narrativas do livro, porém, esse padrão de pensar e se comportar torna-se problemático e leva fatalmente à infelicidade e ao fracasso de qualquer relacionamento.

Segundo a autora, a mulher que ama demais encara seu relacionamento como uma “missão”: ela tem a missão de mudar o seu parceiro, de engrandecê-lo, de ampliar a sua capacidade, de ajudá-lo, de ser sua mãe, sua amiga, sua psicóloga e sua amante, de ser o seu alicerce para tudo, de resolver os seus problemas e – consequentemente – de resolver a sua vida.
Eu nunca me identifiquei tanto com um livro.
Através da minha cultura, formação familiar e religião, aprendi que a mulher precisa seguir os passos do homem; que a mulher que trabalha fora, ao colocar os pés em casa, torna-se automaticamente esposa, e que sua função é aliviar a insatisfação do marido.
Eu, como menina dedicada à religião e à paz mundial, interpretei isso do modo mais radical possível, e me determinei a me tornar a esposa e a mulher perfeita, que se ofereceria até mesmo como “saco de pancadas” do marido, caso fosse preciso.
Foi por isso que, quando meu ex-namorado, logo no início do namoro, começou a desenvolver sintomas psicóticos, eu me vi como a sua salvadora. Quando as pessoas que se importavam comigo (mesmo as que seguiam a mesma religião que eu) diziam que eu não merecia tomar aquele sofrimento para mim, eu achava a ideia de abandoná-lo absurda – “como eu poderia deixar de ajudá-lo? se ele apareceu para mim é porque é a minha MISSÃO cuidar dele”.
E foi com esse pensamento, e com a expectativa do que meu namorado poderia se tornar, e não do que ele era naquele momento, que eu segui aguentando uma pressão imensa até ele melhorar – processo que demorou cerca de sete meses.

“Cuidar” dele acabou não sendo tão simples quanto eu pensava. Eu realmente me tornei um saco de pancadas, não no sentido físico, mas no sentido de me tornar um recipiente onde ele se sentia livre para despejar toda a sua raiva e frustração, tanto com situações imaginárias, como com situações reais do seu passado e presente. Devido às paranoias geradas pela sua doença, era comum ele terminar e voltar comigo várias vezes por semana, por motivos absurdos como achar que eu havia vazado informações de nossas conversas para a Globo. Ele me acusava de coisas totalmente sem fundamento. Era impossível sair de casa, pois ele achava que as pessoas ao redor estavam rindo e caçoando dele. Ele me ligava todos os dias, em todos os momentos em que eu não estava trabalhando (às vezes no trabalho também, porém eu não atendia). Eu estava com ele ao telefone no ônibus, a caminho do trabalho; no horário de almoço; e princialmente após o meu expediente, quando ele podia desempenhar um monólogo eterno até quando, de tão exausta, eu acabava pegando no sono enquanto ele falava – o que também o deixava bravo. Eu chegava a levar o celular para o box, para poder ouvi-lo enquanto tomava banho. Eu me obrigava a ouvir e absorver toda a enxurrada de coisas negativas que ele depositava sobre mim – e quando eu não encontrava palavras para confortá-lo, ele me repreendia e me comparava com a sua falecida mãe, que “sempre tinha alguma palavra reconfortante para lhe oferecer”, o que me fazia sentir culpada por não “ajudá-lo o suficiente”.
Naturalmente tudo isso fez com que eu, uma pessoa já emocionalmente frágil, ficasse desgastada e sobrecarregada. Cheguei a surtar algumas vezes, principalmente nos fins de semana, quando eu podia passar dias inteiros na função de absorver toda a sua negatividade.
Em certo momento eu comecei a me consultar com um psicólogo. Durante uma das sessões, ao me ouvir falar sobre o que eu pensava do meu relacionamento, ele soltou uma frase da qual não me esqueço: “Mas isso é uma relação ou uma missão?” Naquela época eu não considerei muito essa fala, pois apesar de todo o sofrimento, eu ainda estava certa do meu modo de ver as coisas – eu só começava a achar a minha “missão” difícil demais para mim. Acabei saindo da terapia.

Algum tempo depois, quando já havíamos nos casado e os seus sintomas psicóticos já haviam cessado, meu subconsciente veio cobrar o preço de toda a renúncia e sofrimento pelos quais passei na época do namoro, e eu comecei a desejar a separação. Era como se a minha “missão” já tivesse sido cumprida. Isso é uma das características das mulheres que amam demais: quando o “homem problemático” toma jeito, elas deixam de ver sentido na relação – o “amor” acaba.
A mulher que ama demais também tende a escolher o homem pelo seu potencial, e não pelo que ele é no presente. A mulher que ama demais é mais mãe do que parceira. A mulher que ama demais escolhe homens que gostam mais dela do que ela deles, pela segurança de não perdê-lo.

Concluo essa primeira parte com um trecho do prefácio do livro, que ilustra bem o que é ser uma mulher que ama demais:

“QUANDO AMAR significa sofrer, estamos amando demais. 

Quando grande parte de nossa conversa com amigas íntimas é sobre ele, os problemas, os pensamentos, os sentimentos dele — e aproximadamente todas as nossas frases se iniciam com “ele…”, estamos amando demais. 

Quando desculpamos sua melancolia, o mau humor, indiferença ou desprezo como problemas devidos a uma infância infeliz, e quando tentamos nos tornar sua terapeuta, estamos amando demais. 

Quando lemos um livro de auto-ajuda e sublinhamos todas as passagens que pensamos que irão ajudá-lo, estamos amando demais. 

Quando não gostamos de muitas de suas características, valores e comportamentos básicos, mas toleramos pacientemente, achando que, se ao menos formos atraentes e amáveis o bastante, ele irá se modificar por nós, estamos amando demais. 

Quando o relacionamento coloca em risco nosso bem-estar emocional, e talvez até nossa saúde e segurança física, estamos definitivamente amando demais.”

Infelizmente não é que nem filme: “o bem sempre vence o mal”. Enquanto não formos mais espertos e atuantes do que os nossos opositores, nunca venceremos. Não, a rosa nunca vai vencer o canhão. Perdão por desfazer a sua fantasia. Precisamos pagar na mesma moeda. Precisamos temperar esse “amor” com um pouco de ódio e, principalmente, com instinto de autopreservação. Enquanto continuarmos baixando a cabeça para o opressor, continuaremos sendo degolados.

E para quem ainda estava em dúvida, sim, isso é sobre política.

Empatia, Educação e Violência: Um Tempo Para Tudo (Parte 1)

Quantos sofrimentos e punições cruéis as pobres criaturas precisam aguentar somente para dar prazer a homens desprovidos de pensamento racional.” 

Albert Schweitzer, sobre o treinamento e exibição de animais em espetáculos de circo.

 

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Esta é a continuação da série de traduções dos artigos do ex-ativista pelos direitos animais Gary Yourofsky. Para acessar o texto anterior, clique aqui.

 

O amor nem sempre vence o ódio, a razão sozinha não consegue vencer a ignorância e protestos não-violentos nem sempre vencem a violência institucionalizada.

Martin Luther King, Jr. (1929-1968) and Malcolm X (1925-1965) exemplified an all-inclusive approach to the matter of civil rights for African-Americans, incorporating elements of education, nonviolent resistance—and yes, violence when necessary • Photo by Marion S. Trikosco, March 26, 1964 • Public-domain image courtesy of Wikimedia Commons • https://commons.wikimedia.org

Ensaio por Gary Yourofsky

NOTA: O artigo a seguir foi escrito em 1997, e foi atualizado em 2005, 2008 e 2013. Aliás, para todos os pacifistas narcisistas e desonestos que têm mais paixão pela própria imagem do que pelo ativismo em si, por que vocês se recusam a condenar o ativista anti-apartheid Nelson Mandela por sua declaração durante o seu julgamento em 1963:

Eu não nego que planejei sabotagens. Eu não as planejei irresponsavelmente, nem por ter algum tipo de amor à violência. Elas foram resultado de uma avaliação fria e minuciosa da situação política. Sem violência não haveria como o povo africano ser bem-sucedido na sua luta.

E o que dizer deste comentário na ocasião de sua libertação, após 27 anos de cárcere, em 11 de fevereiro de 1990:

Nossa opção pelo conflito armado em 1960 com a formação da aliança militar da ANC (Umkhonto we Sizwe) foi uma ação puramente defensiva contra a violência do apartheid. Os fatores que implicaram no conflito armado ainda existem atualmente, por isso nós não temos escolha se não continuar. Nós temos a esperança de que um clima propício a negociações seja alcançado em breve, de forma que os conflitos armados não sejam mais necessários.

Leia os dois ensaios abaixo, assim como o próximo artigo desta série (“Mais Problemas com o Pacifismo“) para se informar sobre posições táticas. Você também pode assistir a uma entrevista minha de 2012 na qual explico sobre a insanidade do pacifismo puro, abaixo.


 

Pela primeira vez na história, ativistas de direitos animais estão enfrentando um período de repressão sem precedentes pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Com a dificuldade em localizar os ativistas atuantes da ALF (Aliança de Libertação Animal), aqueles que apoiam publicamente a ALF e os ex-ativistas da ALF têm sido os principais alvos do poder opressivo que estes governos rotineiramente exercem sobre aqueles que militam nos movimentos de justiça social.

“Terroristas ou Guerreiros da Liberdade?”, uma coleção de ensaios publicados em 2004, aqueceu o debate sobre a libertação não-violenta e as táticas de incêndio premeditado adotadas pela ALF, além das ameaças de agressão e morte àqueles que diretamente exploram animais, levadas a cabo pelo The Animal Rights Militia (Milícia de Direitos Animais), Revolutionary Cells (Células Revolucionárias), Justice Department (Departamento de Justiça), por mim, por Camille Marino, pelo Dr. Jerry Vlasak e um punhado de outros ativistas ao redor do mundo. (O Dr. Vlasak acabou justificando o uso da violência tática a Ed Bradley durante uma entrevista no programa “60 Minutos”, em novembro de 2005.)

A maioria das pessoas desconhece, mas o grande pacifista Martin Luther King Jr., certa vez, disse:

Minha figura somente causará algum efeito enquanto houver, sobre a América Branca, a sombra de um homem negro na minha retaguarda, segurando um coquetel Molotov.

Ele acreditava também que o incêndio premeditado era um ato não-violento porque as construções – feitas de tijolos, madeira, metal e algum outro material não-senciente – são incapazes de sentir dor.

Quando obrigados a escolher entre pessoas que usavam a violência e pessoas que cruzavam os braços, tanto King como o grande pacifista Mohandas Gandhi sempre escolheram a violência. Por favor, não interpretar as suas intenções de maneira equivocada. King e Gandhi foram grandes pacifistas e acreditaram firmemente no ativismo não-violento. Porém, ambos repetiram várias vezes que alguma coisa (a violência) sempre será melhor do que nada (apatia).

Eu sinto o mesmo. Sem dúvidas prefiro o ativismo não-violento, como palestras em salas de aula, stands em eventos, panfletagem, passeatas, matérias na mídia, investigações secretas e desobediência civil. Porém isso demanda uma variedade muito mais ampla de táticas para atingir um resultado significativo. Se for para escolher entre a apatia e as ações de liberação de doninhas, incêndios em laboratórios de tortura, ataques diretos a vivisseccionistas ou qualquer outro tipo de assassino de animais, eu sempre escolherei as ações.

Martin Luther King, Jr. (1929-1968) • Photographer unknown • Public-domain image courtesy of Wikimedia Commons • https://commons.wikimedia.org

Táticas radicais têm sido rigorosamente implementadas ao longo da história para produzir resultados imediatos. As Forças Aliadas quebraram violentamente os portões dos campos de concentração de Hitler, matando nazistas no caminho, e destruindo para sempre as câmaras de gás de Buchenwald e Auschwitz. Quando o Norte pegou em armas e matou violentamente milhares de racistas do Sul, os homicídios justificáveis cometidos em prol dos escravos negros foram incontestáveis. Gandhi levou à conquista da independência da Índia, ainda que, no processo, muitos indianos tenham assassinado soldados ingleses, se rebelado nas ruas e formado barricadas. As táticas de intimidação dos Panteras Negras e a filosofia de Malcolm X – “por qualquer meio necessário” – não enfraqueceram o movimento de direitos civis nem a exaltação de Dr. King. Na verdade, quando solicitado a impedir o radicalismo de Malcolm X, King respondeu:

Não me peça para parar Malcolm X! Malcolm X irá parar quando o racismo parar!

Como um dos ativistas de direitos animais mais francos que já existiu, eu opto pela mesma abordagem. Quando um não-vegano ou jornalista de TV começa a despejar frases como: “A Frente de Libertação Animal infringe leis e incendeia propriedades!; “A Milícia de Direitos Animais apoia a violência!”, eu simplesmente respondo: “Estas organizações vão parar quando o abuso e o assassinato de animais pararem!”

Aqueles que buscam ativamente acabar com as injustiças deveriam ser sempre aplaudidos, não criticados. Gandhi certa vez disse:

Ao longo da história existiram assassinos e tiranos que muitas vezes pareceram invencíveis. Mas, no final, eles sempre caem! Sempre!

Incêndios, libertações e atos de intimidação ou homicídio justificado não podem  enfraquecer o movimento de direitos animais, porque nada pode impedir o avanço sincero e benevolente rumo à libertação de animais de seus algozes humanos.

Malcolm X (1925-1965) • Photo by Marion S. Trikosco, March 26, 1964 • Public-domain image courtesy of Wikimedia Commons • https://commons.wikimedia.org

Quando a ALF liberta animais e faz diferença imediata nas suas vidas, eu não consigo entender por que alguém não ficaria ao lado da ALF. O melhor então seria esperar que os políticos e a sociedade gradualmente arranjem tempo para encaixar os animais em sua agenda mesquinha e egoísta? Da mesma forma que a estrada subterrânea de Harriet Tubman libertou escravos por meio da “violação” à propriedade dos brancos, a ALF liberta animais por meio da violação à “propriedade” de produtores de pele e vivisseccionistas.

Além do mais, durante as centenas de ações promovidas pela ALF nos últimos 30 anos, nenhum humano jamais foi machucado ou morto. Este registro imaculado de sabotagem econômica também não é acidental. Todos os membros da ALF aderem a um código estrito de não-violência, e têm arriscado sua liberdade – sem prejudicar ninguém no processo – pelos animais que não têm liberdade.

Dezenas de milhares de raposas e doninhas tiveram a chance de não receber um choque anal e ter seus pescoços quebrados pelos reprováveis fornecedores de pele para a indústria de casacos de pele, enquanto cães e camundongos foram libertados de experimentos violentos e doentios e colocados em lares amorosos.

Todavia, uma vez que a violência é uma parte essencial do ativismo, ainda que um abusador de animais tenha sido atingido durante o fogo ou alguma outra forma de ação direta, eu nunca deixaria de apoiar a ação. Eu não gasto empatia com aqueles que escravizam e assassinam animais, os verdadeiros criminosos. Empatia é para vítimas inocentes, os animais. Direitos animais não implica em não-violência a humanos, ainda que a grande maioria dos ativistas abrace uma postura de não-violência a humanos também. Direitos animais é sobre libertar animais de pessoas gananciosas e sem coração que lucram a partir da miséria animal e do assassinato.

É importante lembrar que o movimento de direitos animais tem sido completamente não-violento desde a sua concepção, ainda que a população em geral nos olhe com escárnio. Estudiosos – antigos e contemporâneos – como Pitágoras, Gandhi, Schweitzer, Tolstoy, Plutarco, da Vinci, Dick Gregory, Isaac Bashevis Singer, Dolores Huerta e César Chávez revelaram-se adeptos da mensagem compassiva dos direitos animais. Os animais, porém, continuam sendo escravizados e mortos aos bilhões. Se o protesto pacífico e a educação das massas fossem os únicos fatores para a mudança, a essa altura os animais já estariam livres. Infelizmente, porém, o amor nem sempre vence o ódio. Assim como a razão não consegue vencer a ignorância sozinha. Protestos não-violentos nem sempre superam a violência institucionalizada.

Às vezes eu acho que o único meio efetivo de acabar com o especismo seria fazer com que cada ser humano que não se importa fosse forçado a viver a vida de uma vaca em um confinamento, ou de um macaco em um laboratório, ou de um elefante em um circo, ou de um touro em um rodeio, ou de uma doninha em uma fazenda de pele. Só então as pessoas seriam despertadas de seu sono profundo e finalmente entenderiam os horrores que são infligidos aos animais pela espécie mais vil que já habitou a terra: o animal humano!

 

(Continua)

Texto original na íntegra aqui.